Meditação

Meditação: A Ciência e Arte da Suprema Felicidade

Em Construção: Ver Meditação da Sintonia Divina

 

Os Efeitos Psicológicos da Meditação

Autor: José Matos
Texto original publicado na revista “Saúde Actual“(Revista n.º 5, Ano II, 2003).

É bastante difundida a ideia de que a meditação faz apenas parte de tradições orientais, práticas místicas “estranhas” ou que a sua prática é apenas acessível a grupos que vivem isolados da sociedade.

No entanto, cada vez mais pessoas se sentem atraídas por esta prática, quer porque visam obter algum tipo de benefício específico como o relaxamento, o controlo do stresse, aumento da capacidade de concentração, ou ainda e de uma forma geral, um meio através do qual possam operar um desenvolvimento pessoal e interior mais harmonioso.

Como qualquer experiência subjectiva, é mais difícil definir em que consiste a meditação do que propriamente, experimentá-la. Contudo, meditar parte de um simples acto psicológico como muitos outros que compõem o repertório das faculdades psíquicas do ser humano, como a percepção, a memória, o raciocínio, e que todos experimentamos quando nos deixamos “fundir” numa determinada música, “absorvemo-nos” num pôr do
Sol ou “sentimos” a beleza de uma paisagem…

Meditar significa basicamente um estado de serenidade, relaxamento e consciencialização interior. É um meio através do qual, o praticante pode atingir determinado objectivo ou objectivos, consoante a técnica de meditação que faça.

As meditações podem ser divididas em meditações “activas” ou “dinâmicas” e meditações passivas, Nas primeiras, há uma consciente e intencional direccionamento da atenção num objecto, ideia, visualização, palavra ou frase, oração, etc. A meditação dinâmica exige uma maior capacidade de concentração e energia psíquica, o que se consegue com alguma prática.

A meditação passiva requer mais uma atitude de maior abertura e sintonização com o nosso Eu Interior. Não se trata tanto de algo que a pessoa faz activamente, mas sim daquilo que a pessoa permite que se manifeste, isto porque ela opera a níveis mais profundos da mente.

As técnicas de meditação também podem ser classificadas em “estruturadas” e “não estruturadas”. Nas meditações estruturadas o praticante define a priori quais os passos da sessão que quer percorrer. Vamos dar um exemplo bem simples e dos primeiros exercícios para os que se iniciam na arte da meditação (o “bê-á-bá” da meditação). Um praticante senta-se numa posição cómoda mantendo a coluna direita, procurando relaxar e concentrar-se na respiração, contando de 1 a 10 cada vez que inspira profundamente. O objectivo poderá ser neste caso, relaxar, desenvolver a capacidade de se voltar para si mesmo, desenvolver o poder de concentração…

Caso o leitor não esteja habituado a esta prática, ao experimentar fazê-lo (pensar apenas na respiração), poderá chegar à conclusão que não é fácil governar a nossa própria mente (o que pode levar algum tempo). Trata-se de uma meditação estruturada. Num passo mais à frente, a pessoa pode inspirar durante dois, três, quatro segundos e reter a respiração durante alguns momentos antes de expirar calmamente (focalizando sempre a atenção na respiração). Neste caso, acrescenta-se como objectivo, um aumento de vitalidade e assim por diante…

Numa meditação não estruturada, que deve contudo ter alguns princípios de orientação, o praticante dá mais abertura a que o seu interior dirija as coisas. Isto é dito deste modo porque na realidade, trata-se de um fenómeno menos consciente e mais do foro interior e inconsciente. Não é aconselhável a principiantes embora determinadas formas de contemplação como apreciar um pôr do Sol, uma paisagem, “fundir-se” numa música relaxante e agradável, “deixando-se levar pelos acontecimentos” possam dar excelentes resultados e com riscos mínimos ou improváveis para o psiquismo, para quem não esteja a ser orientado.

O estado de meditação propriamente dita e em estados mais evoluídos trata-se, contudo, de uma prática espiritual que requer uma atitude positiva e receptiva às vias do potencial que existe em todos os seres humanos. Estar em meditação significa estar em sintonia e harmonia com o nosso Eu Interior (ou Inconsciente Pessoal se se preferir): a fonte de todo o potencial humano. Isto requer prática, alguma disciplina, conhecimento e preferencialmente, orientação de alguém competente na área. Com o tempo, a mente conhece um estado de relaxamento, plenitude, preenchimento, alegria, que atrai a sua atenção para a sua própria interioridade, embora a mente esteja sempre vígil e consciente das impressões sensoriais.

 

Buda e a Meditação

O legado da meditação à humanidade é atribuído a Buda, que a ensinou aos seus discípulos como sendo a forma de ultrapassar o sofrimento e frustrações da condição humana geradas pelo egoísmo e apegos da vida humana, e assim ficar livre dos sucessivos renascimentos gerados por acções negativas (karma negativo).

Buda nasceu no século VI antes de Cristo no seio de uma família real e numa época de grandes líderes espirituais e filosóficos (Confúcio e Lao Tsé na China, Zaratrusta na Pérsia, Pitágoras e Heráclito na Grécia).

Após ter observado contra a vontade do seu pai e rei, o sofrimento e a miséria que imperavam fora das muralhas do castelo da sua família, Buda insurgiu-se contra o domínio religioso dos Brâmanes hindus e contra o carácter mitológico e ritualista do Hinduísmo. Abandonou o palácio da sua família real, abdicando da fortuna, poder e vida cómoda que seria sua por direito após a morte do seu pai, para se dedicar à descoberta e posterior ensino do caminho que levaria à cessação do sofrimento.

Buda não estava interessado em satisfazer a curiosidade humana acerca da origem do mundo e do divino. Dando pouca importância a certas especulações metafísicas, a doutrina de Buda consiste num caminho definitivamente psicológico e psicoterapêutico para a Alma. Através da sua célebre frase “Nós somos aquilo que pensamos” podermos considerar Buda o primeiro psicólogo conhecido pela humanidade.

Ao ocidente também nos chegou ao conhecimento as práticas do Raja Yoga ou Yoga Real, um complexo e ambicioso roteiro de crescimento espiritual, deixado escrito em aforismos difíceis de entender à mentalidade materialista por Patanjali. Trata-se de um sistema que visa a autorrealização, dando pistas que permitem o desenvolvimento da consciência através do despertar e desenvolvimento das energias latentes no Homem, através da mente.

Em ambos os casos, são caminhos destinados àqueles que buscam o seu autodesenvolvimento e chegar a um estado superior de consciência, tendo como meta final aquilo que os Budistas designam Nirvana, os praticantes de Yoga Samadhi, Satori os praticantes Zen e estado de “Bem-Aventurança” ou “Consciência Crística” para
determinadas práticas cristãs. No geral, consistem num conjunto de práticas que têm como meta comum, atingir um estado superior de consciência, independentemente do nome dado a esse estado, ou da linha de desenvolvimento que o aspirante quer ou
tem a possibilidade de se inserir. Segundo algumas linhas filosóficas de crescimento humano que têm como base a meditação e que tiveram como precursor Buda*, a meditação consiste num dos meios para atingir esse estado o qual todo o Ser Humano aspira.

 

A Meditação e a Ciência

Os mecanismos através dos quais a meditação funciona não estão ainda totalmente explicados pela ciência. Muitos dos benefícios da meditação constam em inúmeros estudos científicos, que apresentam conclusões mais de verificação dos seus efeitos do que explicativos acerca dos seus mecanismos de actuação.

No entanto, o funcionamento cerebral é extremamente importante, uma vez que três dos pilares da meditação são o relaxamento, a concentração e o domínio da mente.

Quando estamos em estádio de vigília, no nosso dia-a-dia, a actividade cerebral tem uma frequência que se situa entre os 14 e 30 ciclos por segundo. São as chamadas ondas Beta (a actividade cerebral pode ser medida por electroencefalograma). Neste estado, a actividade intelectual é mais ou menos intensa consoante as tarefas que realizamos. É neste registo em que normalmente tomamos decisões, analisamos situações, trabalhamos. Quanto mais aumentada for a actividade cerebral, por exemplo, devido ao stresse, excesso de estimulação como o ruído, menor a capacidade de concentração, clareza mental e maior o desgaste de energia, a fadiga psíquica e física. A partir dos 25 ciclos, a pessoa já dificilmente consegue concentrar-se.

As ondas Delta situam-se numa frequência entre os 0.5 e os 3 ciclos por segundo. É quando estamos em sono profundo ou a sonhar.

As ondas Teta correspondem a uma gama que varia entre os 4 e 7 ciclos por segundo. Não se trata propriamente de um estado mas mais de uma transição da vigília para o sono profundo. Por último, temos as ondas Alfa que são as que nos interessam no momento (têm esta designação por terem sido as primeiras a serem classificadas pela ciência). O estado Alfa situa-se numa frequência entre os 7 e 14 ciclos por segundo. Trata-se do estado de maior percepção, maior consciência, de plena actividade embora mais repousante, com pouco dispêndio de energia e que paradoxalmente, permite um aumento da vitalidade. É o estado da meditação em que podemos experimentar por exemplo, todas as noites quando estamos relaxados, porém conscientes e lúcidos, antes de adormecer.

Foi a descoberta e o conhecimento das potencialidades deste estado que apaixonou vários mestres do desenvolvimento humano, místicos, curiosos e alguns eminentes psicólogos como William James, Wundt, Osho e Krisnhamurti, entre outros. O estado meditativo tem também sido apelidado de “Estado do Ser”, “A voz do Silêncio”, “O Retorno a Casa” entre outros nomes.

Quando o nosso cérebro funciona em ondas Alfa, os dois hemisférios, esquerdo e direito, funcionam no mesmo comprimento de onda tornando-se mais fácil a passagem de informação de um hemisfério para outro, através do corpo caloso (canal que liga os dois hemisférios cerebrais), havendo maior sincronia das ondas eléctricas nas partes dianteira e
posterior do cérebro e entre os dois hemisférios, esquerdo e direito.
Inúmeras experiências e estudos verificaram que neste estado pensamos melhor, com mais clareza, aprendemos com mais facilidade, temos menos dificuldades no acesso às informações contidas na memória, enquanto o desgaste é muito menor.

Com a prática da meditação, a nível físico, a pessoa obtém, com maior rapidez e facilidade, relaxamento muscular, libertação de tensões, redução do stresse, melhoria da circulação sanguínea e diminuição da pressão arterial, diminuição do consumo de oxigénio, alterações na resistência da pele e diminuição das reacções galvânicas da pele, diminuição da concentração de lactato no sangue, diminuição da frequência respiratória e cardíaca.

A nível emocional pode obter maior tranquilidade, facilidade nos relacionamentos interpessoais, maior motivação, força interior e energia para canalizar para o seu dia-a-dia.

Mentalmente, obtém-se com relativa facilidade clareza mental, lucidez, diminuição da instabilidade mental, maior capacidade de raciocínio e memorização (o tão divulgado “estude em estado alfa”), maior criatividade, capacidade de lidar com conceitos e síntese de ideias. O praticante sente que com a prática há uma progressiva expansão da consciência, libertação de conflitos, havendo maior clareza e discernimento das aspirações interiores.

Na esfera existencial e espiritual com empenho e orientação, o praticante pode abrir e desenvolver novas formas de consciência, que o aproximam dê sua realidade Espiritual /Inconsciente, e encontrar respostas às mais variadas questões acerca do seu lugar no Mundo, ao mesmo tempo que sente um maior bem-estar existencial, aumento do sentimento de autorrealização, sensação de serem dispensáveis hábitos negativos como fumar e beber, com redução ou descontinuação dos mesmos, desenvolvimento da personalidade, aumento da consciência ecológica, social e comunitária.

 

Conclusão:

A meditação constitui provavelmente, uma das “ferramentas” psicológicas que o ser humano têm à sua disposição, com as possibilidades mais abismais para o desenvolvimento interior e pessoal. Do ponto de vista da saúde física e psíquica, temos actualmente à disposição centenas de investigações científicas que atestam a meditação e as práticas espirituais como um método natural capaz de aumentar a qualidade de vida, o bem-estar emocional de pacientes com as mais variadas patologias, incluindo pacientes terminais, e a prevenção de perturbações psíquicas e mesmo físicas como acidentes do aparelho cardiovascular.

A nível laboral, os custos com a saúde, com as baixas médicas e psiquiátricas, e as preocupações com a produtividade, têm levado a que cada vez mais empresas norte-americanas promovam a prática da meditação (em alguns casos, na própria empresa) por parte dos seus funcionários, nomeadamente, cargos superiores.

A nível psicológico e psicoterapêutico, existem inúmeros motivos que fazem da meditação um excelente coadjuvante na terapia de determinadas patologias como fadiga crónica, stresse, ansiedade, insónia, depressão, crises existenciais, dificuldades de relacionamentos sociais, etc.

No entanto, mesmo quando não está em vista um enfoque terapêutico ou um “alto voo espiritual”, a redução do stresse, a busca de serenidade, paz, compreensão, o desenvolvimento da criatividade, intuição e consciência interior, constituem motivos mais que suficientes para que cada vez mais pessoas busquem os benefícios da meditação. Muito longe de constituir uma fuga ao mundo, a meditação constitui um excelente meio para uma integração no meio familiar, comunitário e social mais harmoniosa e plena.

 

* A referência ao facto de que, historicamente, o desenvolvimento e ensino do que chamamos “meditação” estar atribuído a Buda, nada tem de tendencioso com qualquer
tipo de religião, nomeadamente, o Budismo. As faculdades e potencialidades humanas são inerentes a cada um de nós, independentemente da filosofia, religião ou conjunto de práticas a que se adira.